30 de maio de 2013

Lírico renitente

Atado ao fio de um verso;

suspenso pelos pés
de um substantivo abstrato;

flagelado a golpes de vírgula,
cutiladas de exclamação;

EU,

remanescente,
réu reincidente,
lírico renitente,

condenado a arder pra todo o sempre
no fogo-fátuo
de uma adjetivadíssima aflição!

(SANDMANN, Marcelo)

26 de maio de 2013

O artista inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

(NETO, João Cabral de Melo)

22 de maio de 2013

Poeta

Acabou o fôlego.
E o coração já desgastado
de tanto metaforizá-lo
bate
     sem convicção.

O verso por tempo
me bastou.
     Toda a vida
era para o branco ocioso do papel.

Acabou o fôlego
e não me basto a mim mesmo.
Sento. A cabeça é vazia
de qualquer palavra.
Penso repetido,
nunca houve esforço em pensar.
Amo uma mulher
e isso é problema meu.

(FERRAZ, Heitor)

20 de maio de 2013

1 ano de furtos!

Hoje completa-se um ano desde que comecei a furtar textos.
De lá para cá, o blog cresceu bastante. De uma maneira que até eu me admirei, pois dos meus (mil!) blogs (inativos, já), este é o único que deu certo.
E para comemorar, lanço o novo layout do blog. Bem mais moderno e limpo.
O que acharam? Bonito, né?!

Agradeço a vocês, leitores, aos amigos da internet e a minha boa vontade. :P

Abaixo estão as cinco publicações mais lidas desta pequena história do Furtando Textos:


Aproveite o aniversário do Furtando Textos e curte a página no Facebook. :)

Agora continuemos com nossa programação normal. Continuemos furtando...

18 de maio de 2013

Annabel Lee


Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor -
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(Edgar Allan Poe)

15 de maio de 2013

Otnemirfos

Essa dor assassina
Que me corrói o peito
Alimenta o meu leito
A musicista da carnificina

Sentimento corrosivo
Desejo de morte decisivo
Em uma corda um nó feito
Procurando um fim a essa dor no peito

O Colar da morte envolve a carniça
E com um salto derradeiro
Abandono a cadeira do desespero
E cesso em um funeral sem missa.

(EINSAM)

12 de maio de 2013

O regimento interno da família

(Tal como visto pelas próprias mães)

Artigo Primeiro – A família é constituída de pai, mães e filhos. Os filhos podem ser vários. 
Os pais, segundo antigas anedotas, também podem ser vários. Agora: mãe, só uma.

Artigo Segundo – Compete ao pai:

a) Chefiar a família em todas as circunstâncias; 
b) Prover o sustento dos seus, alardeando-o aos quatro ventos com frases do tipo: eu me mato trabalhando; 
c) Ir ao futebol nos domingos, voltando irritado com o desempenho do time; 
d) Tomar chope; 
e) Participar num carteado de vez em quando; 
f) Dormir nos sábados à tarde, exigindo da família o máximo de silêncio; 
g) Reclamar da comida, das camisas que não estão limpas e dos papéis que somem.

Artigo terceiro – Compete aos filhos:

a) Transformar a casa num caos, desarrumando tudo que encontram pela frente; 
b) Quebrar objetos de estimação; 
c) Encher-se de balas e chocolates, mas não comer nada às refeições; 
d) Chorar à noite quando são pequenos e sumir à noite quando são maiores; 
e) Estragar sapatos, rasgar roupas e perder coisas; 
f) Fazer xixi na cama quando são pequenos e desafiar a autoridade dos pais quando são maiores.

Artigo quarto – São tarefas da mãe (mãe não tem competências, só tarefas):

a) Desdobrar fibra por fibra o coração; 
b) Sofrer no paraíso; 
c) Acordar às seis da manhã para preparar os filhos para o colégio; 
d) Limpar, limpar, limpar; lavar, lavar, lavar; arrumar, arrumar, arrumar; 
e) Suspirar pela carreira desperdiçada; invejar as amigas que não casaram, que são independentes, que têm uma profissão; 
f) Amaldiçoar o papel de mãe, mas 
g) Correr cada vez que o filho chora, aos gritos de Não chora, filhinho, a mamãe já vai aí!

(SCLIAR, Moacyr)

*Crônica em homenagem ao dia das mães furtado do livro Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.

9 de maio de 2013

Sem título 8

No vale das sombras
Gritos de ódio ecoam no vazio.
Almas perdidas exalam cheiro de morte,
E a carne, já podre, é devorada lentamente.
Flores secas habitam os túmulos,
Secas como os ossos dos que vos esperam.
A escuridão é um refúgio para os que se perdem,
Os que se encontram à morte.
A morte seduz,
Dama negra que decide teu futuro.
O fogo do inferno queima,
E tu, pecador, queimarás eternamente.

(RIBEIRO, Eliza)

6 de maio de 2013

Ojeriza

Passado e presente se fundem,
Se confundem e eu aqui,
Estátua a observar.
Os ventos, leves, cheiro de brisa,
De flor que passava, passou.
E os ventos, os vinhos e os risos
E os caprichos, pousaram em outro hemisfério,
Em outra cabeça, em outro sorriso, em outra taça...
Congelada ficou no tempo e no espaço a minha dor,
O meu furor – formou novo caminho e cicatrizes.
E aquela ruga no espelho, e aquelas interrogações,
Já chegaram?
Ansiedade estancada de necessidades maiores.
E o meu eu onde andará?
Não sei.
Ojeriza.

(BILYCZ, Nara)

3 de maio de 2013

Indiferença e vazio

Nada.
Nada que nem branco e preto
Preto e branco
Sem sentimento.
Nada
Vezes mais nada
Indiferença que nem desinteresse
Nada
Mais nada.
Outros. Menos tu.
Nada
Dar de ombros
Talvez igual a nada.
Sim e não
Diferente de indiferentes
Que são iguais a nada.
Nada, mais nada e nada de nada.

(MAGALHÃES, Lyege)

 

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