26 de fevereiro de 2013

Tempo


     É nada 
e nele, nada vida tanta.
     Para o tudo 
contudo, toda estrada 
para o eterno leva.
     Ondas, passos, 
onde andam luz e treva.
     Manhãs tardias 
tardes amenas 
tenro ocaso 
esperanças sombrias 
crepuscular mergulho no espaço, 
exalando alfazemas 
na doce metamorfose dos dias.
     Palco oculto 
sem protocolos, 
perene preâmbulo 
do notório desconhecido.
     Se distante 
saudoso, 
presente 
pouco vivido, 
parco, muito precioso 
mesmo calvo, atrofiado 
desfecho avalizado 
na própria face refletido.
     Mistura de medo e ansiedade 
eixo, alavanca, sustento 
estreito caminho, o tempo 
vasta realeza, a eternidade.

(DAMO, Luiz)

23 de fevereiro de 2013

Paranoia


Quando me atrevo a parar e me atrevo a pensar, 
Eu me pergunto, abro até o fundo e pergunto! 
Eu te quero tanto, tu não queres nada! 
Eu te dou tudo, tu não me dás a mínima! 
Eu queria ser teu Sol, tu estás sempre nas nuvens. 
Eu sou teu arco-íris, tu és daltônica. 
Eu sou todo tato, tu só usa luvas. 
Eu sou todo olfato, tu não sentes cheiro de nada. 
Eu te olho e te observo, tu não queres ver nada. 
Eu sou só sentidos, tu sentes muito. 
Eu te abro todas as janelas do meu sótão, 
Tu só queres as sombras dos teus porões. 
Eu te construo, tu me desmontas. 
Eu me conserto, tu me desconsertas. 
Eu me alucino, tua lucidez é puro medo. 
Eu te mergulho, tu tens medo d'água. 
Eu sou tão sincero, tu és pura ironia. 
Tens medo que minha chuva, te cause uma pneumonia. 
Eu desabrocho, tu me podas na raiz. 
Eu sou o fogo, tu adoras o inverno. 
Eu flutuo no ar, tu adoras gás carbônico. 
Eu te contemplo, tu não tens tempo. 
Eu te chamo, tu és muda. 
Eu grito, choro, esbravejo, tu só escutas buzinas. 
Eu ardo em paixão, tu não tens compaixão. 
Eu não durmo, tu sonhas com anjos. 
Eu queria ser teu futuro, tu vives no passado. 
Eu quero ser tua ponte, tu não queres atravessar nada. 
Eu tento, tu deténs. 
Eu me testo, tu me detestas. 
Eu queria te dar o mundo, tu nem queres ver como é funda, a fossa escura que te mantém moribunda... 
Eu quero que venhas para a luz, tu adoras o luto 
Eu queria te envolver em flores, tu preferes os espinhos. 
Eu me multiplico, tu me divides. 
Eu me somo, tu me subtrais. 
Eu te ofereço a minha calma, tu preferes a tua angústia. 
Eu te ofereço a minha pureza, tu adoras o cheiro do lixo .
Eu me desespero, tu não sabes o que é uma lágrima. 
Tu és fria, fria, fria, rígia e dura, 
Que quando estiveres mais só, em tua sepultura. 
Eu te direi baixinho: 
Tenta viver em paz agora, criatura!

(ROSS, Julio Fernando de)

20 de fevereiro de 2013

Sonho de amor


Vi-te em meus braços 
Carreguei-te por quilômetros em minha vida 
Tua respiração era como o vento que açoitava a minha face 
Teu murmúrio era como doces palavras falando de amor 
Tua vida era motivo para a minha 
Ao chegar ao meu destino, senti que não precisava dele 
Pois você era tudo o que eu queria 
Sentei a sombra de teus olhos 
Bebi a água de teu sorriso 
E passei o resto de minha vida contigo 
Mas em meio a noite acordei e vi que tudo era um sonho

Hoje procuro você...

(MONTOVANI, Fernando)

17 de fevereiro de 2013

Ser feliz


Às vezes 
Paro no meio do caminho 
Olho o infinito 
Procuro respostas 
Em minha mente 
Fervilham dúvidas 
Para onde ir? 
Por que existir? 
A única certeza que tenho 
Quero ser feliz!

(SILVA, Eva Maria Rosa da)

14 de fevereiro de 2013

Suas lágrimas


Eu não preciso sera noite, 
Simplesmente o escuro 
Não preciso ser o sol com todo seu calor, 
Me bastaria ser um raio; 
Não quero ser o mar com toda sua profundidade, 
Somente a fonte; 
Não preciso ser o concerto, 
Porém ser a canção; 
Eu não preciso ser a rosa, 
Só me basta ser o espinho; 
Com toda sua extensão, não quero ser o caminho, 
Somente o atalho; 
Não preciso ser a chuva, 
Só me basta ser a gota; 
Não preciso ser a vida, 
Porém ser o momento; 
Eu não quero ser rocha, 
Somente o grão; 
Não quero ser o dia, 
Me basta ser a alvorada; 
Não preciso ser universo, 
Só me basta ser uma estrela cintilar; 
Não preciso ser você, 
Porém ser suas lágrimas.

(DUTRA, Elisângela)

11 de fevereiro de 2013

Como te amo!!!


Não te amo como se fosses radiante magnólia, topázio 
Ou cerejeira premiada pela primavera: 
Te amo como se amam certas coisas obscuras, 
Secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva 
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, 
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo 
O apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
Com o coração queimando por longos raios rubros... 
Que caminho te trouxe à minha alma? 
Aquele que comunica com a fragrância do mundo?

Não quero que vacilem teu riso nem teus passos, 
Senão assim deste modo em que não sou nem és, 
Tão perto que tua mão sobre meu peito é minha, 
Tão perto que se fecham teus olhos com o meu sonho.

(PERTILE, Anita Zanettini)

8 de fevereiro de 2013

“Enquanto a cidade cresce, a natureza padece”


A liberdade é um penico 
A verdade é uma favela 
A esperança é um motivo 
O poder é um posto 
A alegria é uma casa sem entrada 
A amizade é a pedra mais rara 
O país é nosso leito de morte 
A mentira é uma coroa de espinhos 
A tragédia é um resultado 
A morte é o que temos de concreto 
O cinismo é uma conta mal paga 
A violência é uma soma 
A ignorância é uma carência 
O amor é um remédio 
O espírito é um sonho 
A lembrança é um vento 
A natureza é uma força 
A razão é o melhor caminho 
O instinto é uma ameaça 
A poluição é uma doença 
O ciúme é uma serra elétrica 
A saudade é um privilégio 
Um filho é uma conquista 
A fome é divisão mal feita 
Um provérbio é a prisão de uma ideia 
A vingança é o estrume de um verme 
A guerra um ser primitivo 
A arte é o esboço da vida.

(BONOTTO, Alba Regina)

5 de fevereiro de 2013

Apólogo da flor


Já fui um meigo botão 
Uma rosa no jardim 
O que fizeram de mim 
Foi uma grande maldade 
Me ceifaram a liberdade 
Pra cobrir o simples vazio 
De um vaso sobre a mesa 
Feito de barro e aspereza 
Não arrefecendo teu frio 
Que no arrepio de tua'lma 
Me olhou nunca me viu. 
Vejam só o meu destino 
Antes de sufocado ser 
Num embrulho de jornal 
E o mercado percorrer 
Pra servir o desatino  
Do homem despojado 
Da alegria de menino 
Já não brinca no quintal 
Nem me vê desabrochar 
E pra solidão de um vaso 
Prefere me levar. 
Junto à terra eu livre era 
Com meus irmãos a perfumar 
Os prados a primavera 
À brisa sempre a bailar 
Mas tu homem nos persegue 
Nos matam e vil se serve 
Insensível nos aprisionam 
Num embrulho de jornal. 
A tua vida intrincada 
Com minha morte enfeitando 
E por um corpo sem vida até 
Igualmente me ceifando 
Num ritual lamuriante 
A beleza profanando.

(BORTOLATTO, Adnício)

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A partir deste texto, irei publicar mais textos furtados do livro 4ª Antologia Caxiense de Poetas – 2º Concurso Caxiense de Poesias. 
Este livro contém textos que foram publicados para as comemorações dos 10 anos de Misturas & Bocas Produções – 1981-1991. 
As publicações destes textos terão o marcador "4ª ACP".

2 de fevereiro de 2013

Castigo


Em minutos cai uma árvore: 
Para fazer teu berço, tua mesa 
Tua cama, teu caixão. 
Levou anos e anos prara crescer 
e ninguém; nem tu nem teu pai, 
nem o pai do teu pai: ninguém 
plantou ao menos umas 20 mudas 
para crescer no lugar da que morreu... 
Crime!

Rios envenenados, peixes mortos, 
Porque uma maldita mão 
Deu propina à outra maldita mão 
para deixar a fábrica funcionar 
Sem os filtros e destruir os rios e o ar... 
Roubo!

Mas a natureza não se defende, se vinga! 
e os filhos dos teus filhos, nascerão 
doentes: os pulmões estragados, fracos 
e por certo morrerão de fome. 
Porque você “matou o ar, matou os rios, 
Matou as matas” e morreu... 
Justiça!

(SOARES, Jofre)
 

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