Quando me atrevo a
parar e me atrevo a pensar,
Eu me pergunto, abro
até o fundo e pergunto!
Eu te quero tanto, tu
não queres nada!
Eu te dou tudo, tu não
me dás a mínima!
Eu queria ser teu Sol,
tu estás sempre nas nuvens.
Eu sou teu arco-íris,
tu és daltônica.
Eu sou todo tato, tu só
usa luvas.
Eu sou todo olfato, tu
não sentes cheiro de nada.
Eu te olho e te
observo, tu não queres ver nada.
Eu sou só sentidos, tu
sentes muito.
Eu te abro todas as
janelas do meu sótão,
Tu só queres as
sombras dos teus porões.
Eu te construo, tu me
desmontas.
Eu me conserto, tu me
desconsertas.
Eu me alucino, tua
lucidez é puro medo.
Eu te mergulho, tu tens
medo d'água.
Eu sou tão sincero, tu
és pura ironia.
Tens medo que minha
chuva, te cause uma pneumonia.
Eu desabrocho, tu me
podas na raiz.
Eu sou o fogo, tu
adoras o inverno.
Eu flutuo no ar, tu
adoras gás carbônico.
Eu te contemplo, tu
não tens tempo.
Eu te chamo, tu és
muda.
Eu grito, choro,
esbravejo, tu só escutas buzinas.
Eu ardo em paixão, tu
não tens compaixão.
Eu não durmo, tu
sonhas com anjos.
Eu queria ser teu
futuro, tu vives no passado.
Eu quero ser tua ponte,
tu não queres atravessar nada.
Eu tento, tu deténs.
Eu me testo, tu me
detestas.
Eu queria te dar o
mundo, tu nem queres ver como é funda, a fossa escura que te mantém
moribunda...
Eu quero que venhas
para a luz, tu adoras o luto
Eu queria te envolver
em flores, tu preferes os espinhos.
Eu me multiplico, tu me
divides.
Eu me somo, tu me
subtrais.
Eu te ofereço a minha
calma, tu preferes a tua angústia.
Eu te ofereço a minha
pureza, tu adoras o cheiro do lixo .
Eu me desespero, tu não
sabes o que é uma lágrima.
Tu és fria, fria,
fria, rígia e dura,
Que quando estiveres
mais só, em tua sepultura.
Eu te direi baixinho:
Tenta viver em paz
agora, criatura!
(ROSS, Julio Fernando
de)