28 de novembro de 2012

Vem!...


A primavera se faz chegada 
E o desejo faz convites 
Meu corpo tem cadência de asas 
Meu anseio é luz, solicitude, 
Acariciando tua chegada.
                       Vem!... 
As mãos colhem rosas 
Para que exalem perfume 
Na doação do amor.
                       Vem!... 
Escutar a emoção de meu poema 
Quero habitar em ti 
Como estrela vésper 
Como orvalho, 
Como canção, 
Como mulher.
                       Vem!...

(PANTE, Helena Dal Zotto)

25 de novembro de 2012

Paz


Mirei o horizonte 
Com uma faca 
Cortei o pecado 
Peguei uma pedra 
De felicidade 
Com um bodoque 
Lancei 
Com um cartucho 
De sentimentos 
Um revólver 
Disparei 
Peguei uma metralhadora 
Espalhei balas de sabedoria 
Peguei uma carabina 
De esperança 
Uma bomba 
De paz 
Um canhão 
De brinquedo 
Deflorei um gem 
Peguei uma flecha 
De amor 
Um barco 
Naveguei 
Peguei uma granada 
De vida 
Mirei o horizonte 
Atirei 
O alvo era você.

(GONÇALVES, Evandro Vanti)

22 de novembro de 2012

Epílogo


Foi caminhando por entre as estrelas 
Procurando achar um lugar ao sol 
Numa cidade oculta e impessoal 
Como impessoais são nossos reflexos no espelho

Uma mariposa escreveu na neblina 
O epílogo de uma poesia gelada 
Desenhando beijos ardentes 
Na boca da noite

Sentou-se na sarjeta acompanhado pela solidão 
Desejou um seio quente, um rosto amigo 
Bebeu um trago de chuva 
E se entregou a luxúria do embriagar-se

Um retrato amarelado foge do bolso 
Libertando pesadelos de paixão 
Que teimam em arrancar do íntimo 
Amargas lágrimas como a garoa que cai

Já não há mais canções paridas no piano 
Nem as luzes febris do salão 
Já se apagaram os olhares lânguidos 
Dispostos a furtar excitadas taquicardias

Aponta os olhos para o passado 
Projetando futuros no ontem 
E ri, pura e simplesmente ri 
Enquanto o dedo dispara 
O tiro de misericórdia.

(SANTOS, Evandro Ivam dos)

19 de novembro de 2012

Procura


Procura-se alguém 
Que não tenha idade nem cor 
Mas que fale de amor...

Procura-se alguém 
Não precisa saber onde ir 
Mas que seja alguém 
capaz de sorrir...

Procura-se alguém 
Não precisa dar 
O seu pão a quem não tem 
Mas que seja capaz de repartir...

Com minha procura descobri 
Que o mundo está vazio 
Vazio de amor 
Vazio de pessoas alegres 
Vazio de gente capaz de repartir...

Então me dei conta 
Da miséria em que vivemos 
Percebi que não vale a pena 
Somente crer que um dia isso vai mudar...

É preciso agir 
É preciso encontrar gente disposta 
A encontrar a saída deste mundo imundo 
Que o egoísmo criou.

(SILVA, Eva Maria Rosa da)

16 de novembro de 2012

Um amor de menina

Outro dia no orfanato 
Vi as crianças sentadas 
A uma mesa barata, 
Recitando um salmo.

Após a refeição matinal 
Elas foram para o quintal, 
Para brincarem com os bichos: 
Frangos, cachorros e suínos.

Crianças pequenas e pobres 
Sem pais, sem mães, sem avós; 
Apenas corações puros e nobres 
Naquele orfanato, todas sós.

E aquela garotinha na horta 
Tendo à mão um regador, 
Aguava as plantas e cantava, 
Então ela arrancou uma flor.

E veio correndo me abraçar 
E não quis mais me largar. 
Ela me deu a flor e disse: 
“Papá, não vá! Papá, não vá!”

(LIMA, Emanuel)

13 de novembro de 2012

Cuidado, menor


Se a rua é meu lar 
O ar meu melhor amigo 
Se meu abrigo é a calçada 
E a geada meu “frigidaire” 
Se a mulher a me dar carinho 
É um pedacinho de papelão 
Se até meu pão é o lixo 
E se bicho eu não sou 
Se estou drogado, imundo 
E meu mundo é diferente 
Se a gente me detesta 
E se a festa pra mim é a fome 
Se homem não posso ser 
Por não ter bens nem idade 
Se a sociedade é maldita 
E dita as regras do jogo 
Se é um fogo o protesto 
E detesto me queimar 
Se meu andar já é suspeito 
E meu jeito me denuncia 
Se a alegria que sinto é tristeza 
E certeza já não tenho 
Se venho implorar carinho 
E um pouquinho de amor 
Se a dor já me supera 
E a espera é a morte que vem 
Se mesmo ninguém quer me ouvir 
Então o jeito é sumir... 
Gente eu não sou gente?! 
Sou, mas de quem é a culpa? 
Então me ajude a viver 
Por favor não quero morrer 
Sou ainda muito jovem 
Sou um menor ABANDONADO.

(GALLON, Elôi)

10 de novembro de 2012

Penso em nós


Penso em nós como duas pessoas que se depararam perante
            um crepúsculo da natureza onde a paixão pairou no ar. 
Por instantes, diálogos inseguros; por outros, olhares
            cintilantes falavam por nós. 
Fomos descobrindo o amor mútuo que existia entre nós.
            O sol queimava nossa pele, a brisa passava por entre
            nossos cabelos, como querendo nos acariciar feito mãos
            do tempo. 
Teus toques suaves deixavam transparecer teus sorrisos
            escondidos. 
Tua voz melodiosa me encantava em cada palavra pronunciada. 
Permutávamos grandes e meigos carinhos. 
Eu, hoje, penso em nós como um todo, suprindo-se ambos
            os vazios que existiram. 
Ao transcorrer do tempo, recordaremos nas asas da saudade
            nossos momentos de grande felicidade. 
Penso em nós como duas pessoas que o tempo vinculou e
            que jamais irão se dispersar.

(DUTRA, Elisangela Scopel)

7 de novembro de 2012

Positivo


Um sonho a dois 
Enfim... positivo! 
O que acontecerá agora? 
Será perfeito? 
Não importa, deu positivo 
Já o vês crescendo 
Quebrando vidraças 
Não importa, deu positivo 
Médico, advogado 
Professor ou operário 
Não importa, deu positivo 
Se o destino te trair 
E no mundo se perder 
Mostrarás um sinal. Será positivo 
Ainda que esta missão 
Por razões mais fortes for interrompida 
Saberás suportar sorrindo 
Pela razão de ter dado positivo 
E diante destas alternativas 
O que importa é que ele virá 
Feio ou bonito 
Forte ou frágil 
Sementes de você 
Positivamente é seu filho.

(BUSIN, Edson)

4 de novembro de 2012

O banquete


Comida não falta. A decoração é incomparável. 
Os presentes caríssimos, conforme o uso.

Os garços treinados são perfeitos no métier: 
Com olho clínico, conhecem logo os clientes.

Servem os parentes, os amigos, os afilhados 
E também os que se encontram bem trajados.

A multidão aguarda, feliz, a sua vez. 
Seus olhos secam, depois de muito esperar. 
O estômago dói, sua boca há muito já secou.

Muitos começam a se acreditar intrusos; 
Alguns vão-se embora, indignados; 
Outros, em grupo, reivindicam.

Há os que têm vergonha de reclamar 
Em público – O que iriam pensar? -

A desnutrição faz confundir a mente, 
Chega a dar sono, embriaguez, estupidez...

Os garçons espertos percebendo 
Que a tristeza do ambiente vai comprometer 
O brilho desse banquete admirável 
Servem os salgadinhos chamados de “tapa-boca”.

Enquanto poucos se deliciam com a sobremesa 
A maioria espera, sem comida à mesa.

(CERCATO, Doroti da Silva)

1 de novembro de 2012

Poema do Não Ir

Sobre o poste de antiquário uma rota lanterna 
mal acesa ronda pálida o Tempo do Não Ir. 
A madrugada, outonando a noite vai parindo a aurora, 
andarilha viciada que retorna à mesma hora 
e inicia à mesma hora o rito de partir.

                         Há rastros retardados pela rua quase deserta 
                         Talvez de um último ébrio que assim, retardatário 
                         tateou na escuridão a direção incerta.

Boceja a orvalhada silhueta da cidade 
Um bocejo que pincela com palhetas de lilases 
a rotina da aurora, que de velha e recém-nata
                                            nasce e vive, morre e nasce
                                            e conserva a mesma idade.

A angústia que se instala no Tempo do Não Ir 
introniza perplexa um medo ignorante 
da terra que encobre a matéria emudecida. 
Os noturnais acordes das sentinelas rãs 
coaxam em surdina ladainhas pagãs 
num rito semelhante aos demais ritos da vida.

Na bailarina lágrima do Tempo do Não Ir 
a sapatilha d'alma vai escorrendo surda 
a face perturbada de uma sentida espera.
 

Furtando Textos ₢ 2012-2013 Template por Template Para Blogspot customizado por Gui Spigolan