31 de dezembro de 2012

Noites


Noites que chegam 
Mansamente 
Com um doce perfume 
Nas flores 
Noites que trazem 
Saudades 
Lembranças vivas 
De amores 
Noites de afeto, carinho 
Palavras que sussurrei 
Em seus ouvidos 
Noites de mágoas 
Contidas 
Que ficaram 
Em meu mundo esquecidas 
Noites que rolei para seus braços 
Ganhei beijos doces iguais ao mel 
Mas logo vieram as consequências 
Porque mais tarde 
Chorei lágrimas amargas 
Iguais ao fel 
Noites cheias de lembranças 
De um alguém 
Que amei e sofri 
Noites de que restaram somente 
As lembranças 
De um grande amor 
Que para sempre perdi.

(OLIVEIRA, Maria de Lourdes Pessoa de)

28 de dezembro de 2012

Cartas


O carteiro na calçada atapetada de folhas. 
Chuva fina na estrada, 
correspondência sem interferência. 
Acabada a entrega 
lá vai o carteiro, 
na calçada atapetada. 
E os jovens a divertir-se com a entrega 
espalham-se na chuva fina. 
E o carteiro? lá vai na calçada atapetada. 
Velhos sorridentes. 
Correspondência entregue. 
Lá vai o carteiro, 
mesmo com chuva fina prossegue a jornada, 
levando notícias pela estrada.

(COSTAMILAN, Maria P. L.)

25 de dezembro de 2012

Pôr do sol no asfalto


Hoje fiquei esperando o sol desmanchar, 
mas ele chocou-se contra uma parede de concreto. 
E, assim como sempre, o concreto absorve a natureza 
e mata aquele resto de eternidade 
que a gente carrega nos olhos verdes 
inexistente nos olhos brancos. 
Fiquei esperando o concreto desmanchar. 
E continuo...

Vivo morta, semi-de-mim.

(CASAL, Márcia Elisa)

22 de dezembro de 2012

Um instante de felicidade


Hoje me sinto mais segura, 
mais forte, 
aberta, talvez liberta. 
O medo não me aflige 
Hoje estou em busca de um novo ideal. 
Não quero vacilar. 
Hoje me sinto realizada. 
Sinto uma grande força interior, 
Uma força que me empurra pra frente, 
que fala alto, 
que me dirige a um caminho sem volta. 
Hoje eu quero a vida. 
Hoje quero vivenciar tudo de perto. 
Quero reviver. 
Quero sonhar. 
Quero acordar e sentir a felicidade, 
Sentir o vento em meu rosto, 
Sentir o sol na minha pele, 
Olhar pro céu e me perder entre o azul. 
Quero ver as estrelas e sentir brilhar minha alma, 
minha voz, minhas ideais, meu coração. 
Quero olhar pra lua e sentir o sangue correr nas veias, 
Sentir o cheiro do campo, 
Ouvir o canto de um pássaro. 
Quero ouvir o barulho da água correndo 
num rio, 
numa cachoeira, 
no mar, 
não importa onde seja, mas quero sentir a água. 
Quero acordar com o dia, 
Dormir com a noite. 
Quero estar de bem com a vida. 
Quero a paz. 
Hoje quero sentir a felicidade, 
Mesmo que seja só por um instante. 
Hoje quero presenciar tudo, 
observar tudo, 
pensar sobre tudo 
e sobretudo sentir a felicidade sair de dentro de mim, 
nem que seja só por um instante.

(GALVANI, Mara Aparecida Magero)

19 de dezembro de 2012

Homenagem


Ele veio de um mar distante 
No seu coração trazia fé 
Na esperança a força renascia 
Na humildade, sabe o que ele quer

Nas suas mãos uma semente 
Que o tempo nos mostrou 
Que é com garra, sangue e vida 
Que se colhe o que plantou

No amanhecer de cada dia 
Renova a fonte do prazer 
De desvendar com ousadia 
As virgens matas pra viver

Sonho que fez com amor 
Terra de vencedor 
No campo e roça o suor 
No vinho o sabor melhor

Viva! a você, que soube ser o herói 
Que um dia tudo isso desbravou 
Vivo da certeza, que foram os teus frutos 
Que na mesa muita gente alimentou

Viva! também suas canções 
Que deixaram suas marcas para as novas gerações 
Vivo! com saudades daqueles teus cabelos brancos 
Que o vento já levou.

(WILBERT, Luiz Paulo)

16 de dezembro de 2012

Sentido


Apagam-se as luzes 
vaga solta a melodia 
a procura da voz...

silêncio... 
corpo inerte 
gestos sentimentos procuras 
facho de luz 
palco de vida...

paredes brancas e breu 
voo insólito ao infinito 
inacabado e recomeço 
para todo e sempre

Espirais futuros da imaginação 
escondem o tempo 
duendes de infância 
fantasias ginasiais 
e juventude descolorida

Degraus de sonhos 
e o estampido seco na madrugada...

Mas há o violoncelo solitário 
o movimento invisível 
a multidão o dia seguinte 
os fragmentos multicoloridos 
e o mistério indivisível...

(ALMEIDA, Julio Cesar de)

13 de dezembro de 2012

Ideário


As ruas... 
subitamente ficam desertas 
cessam alaridos 
vozes passos 
sons e movimentos 
nódoas de espaços 
asfixiam-se no vento

olhares furtivos 
detrás de restos de cortinas 
expiando culpas medos 
e outros sentimentos 
sumidos em névoa esparsa
                         e vácuo...

O cavaleiro escarlate 
emerge de todos os tempos 
história implacável 
reparando injustiças 
lança enfeitada 
elmo de bronze 
olhar frio vazio 
e algum resquício de humanidade

tempo e inércia 
fundem-se nos absurdos 
homens e mesquinharias iguais 
lado a lado com a mentira do viver 
manequins de gesso 
encantos e quebrantos 
misturados à névoa seca

almas seculares de pedra 
arrastam-se no nirvana 
à procura da morte 
dor alegria agonia 
fim e começo desintegrados...

tem reinício a história 
poeira cósmica 
lapsos tempo 
gama imaginária 
ideias sons 
cores imperfeições 
encantos ilusões sentimentos

o verbo a palavra 
e o ser sem solução!...

(ALMEIDA, Julio Cesar de)

10 de dezembro de 2012

Ascensão


Purpurinas, luminescências, fótons, clarividências. 
Sortilégios, premonições, bolas de cristal. 
Luzes de Natal, Pirâmide Oriental, Dogma transcendental. 
Magia de tons que se entrelaçam. 
Fluxos, auras, efervescências, 
formas que se fundem, se encaixam, 
Formas que penetram umas nas outras. 
Ondas de som, de luz, de cor, de pensamento, 
Sombras, furta-cores, infravermelho, ultravioleta, 
Arco-íris, ondas curtas, micro-ondas, 
Ondas médias, alta frequência, impregnação de retinas. 
Permanganato de potássio, nitrato de prata, 
Tons prateados, roxos, cor de lata, 
Não há nada neste mundo que mais dilacere, fira, mate, 
do que a pureza perdida, 
A dor vencendo a alegria, 
O amor transformando em sucata.

Tenta salvar o que resta, 
joga fora o que não presta, 
olha por esta festa, 
O mundo lá fora é uma festa!

(ROSS, Júlio Fernando de)

7 de dezembro de 2012

Amargo


Bote água pra esquentar 
Prum amargo nós tomar 
Enquanto a água vai esquentando 
O amargo vou cevando.

Erva nova bem verdinha 
Cuia e bomba já prontinha 
Água morna sem ferver 
Vamos trovando até anoitecer.

Este amargo mui gostoso 
É símbolo mui charmoso 
Do no Rio Grande amigo 
Que levo sempre comigo.

Quero a todos mostrar 
Que não precisamos cantar, 
Basta um amargo tomar 
Que nossa saudade retornará.

O amargo vai passando 
No passado vamos falando 
Saudades vêm chegando 
Em nossos corações se abancando.

(SILVA, João Batista da Silva)

4 de dezembro de 2012

Mulher


Na solidez de teus passos, 
segues a trilha dos tempos, 
semeias virtudes, responsabilidades 
e amas acima de tudo. 
A essência de teus princípios 
não se extinguirá jamais, 
mesmo que o sono da noite 
transforme em cinzas os teus ideais. 
A cada dia que passa, as conquistas se acentuam, 
num voto de confiança 
os temores recuam.

(ZAMBELLI, Irma Bufon)

1 de dezembro de 2012

Big anúncio


(Para Eva e Marcondes Tavares)

Agora virei mágica 
(sou o mago no tarô) 
meu carinho desfaz 
dores, cansaço, problemas... 
meu carinho está à venda. 
Preço: dez mil dólares 
(pois cruzeiro não vale a pena) 
Endereço: Caixa Postal $$$
                 cep $$$$$ - Caxias/RS.

(VEBBER, Ivone)

28 de novembro de 2012

Vem!...


A primavera se faz chegada 
E o desejo faz convites 
Meu corpo tem cadência de asas 
Meu anseio é luz, solicitude, 
Acariciando tua chegada.
                       Vem!... 
As mãos colhem rosas 
Para que exalem perfume 
Na doação do amor.
                       Vem!... 
Escutar a emoção de meu poema 
Quero habitar em ti 
Como estrela vésper 
Como orvalho, 
Como canção, 
Como mulher.
                       Vem!...

(PANTE, Helena Dal Zotto)

25 de novembro de 2012

Paz


Mirei o horizonte 
Com uma faca 
Cortei o pecado 
Peguei uma pedra 
De felicidade 
Com um bodoque 
Lancei 
Com um cartucho 
De sentimentos 
Um revólver 
Disparei 
Peguei uma metralhadora 
Espalhei balas de sabedoria 
Peguei uma carabina 
De esperança 
Uma bomba 
De paz 
Um canhão 
De brinquedo 
Deflorei um gem 
Peguei uma flecha 
De amor 
Um barco 
Naveguei 
Peguei uma granada 
De vida 
Mirei o horizonte 
Atirei 
O alvo era você.

(GONÇALVES, Evandro Vanti)

22 de novembro de 2012

Epílogo


Foi caminhando por entre as estrelas 
Procurando achar um lugar ao sol 
Numa cidade oculta e impessoal 
Como impessoais são nossos reflexos no espelho

Uma mariposa escreveu na neblina 
O epílogo de uma poesia gelada 
Desenhando beijos ardentes 
Na boca da noite

Sentou-se na sarjeta acompanhado pela solidão 
Desejou um seio quente, um rosto amigo 
Bebeu um trago de chuva 
E se entregou a luxúria do embriagar-se

Um retrato amarelado foge do bolso 
Libertando pesadelos de paixão 
Que teimam em arrancar do íntimo 
Amargas lágrimas como a garoa que cai

Já não há mais canções paridas no piano 
Nem as luzes febris do salão 
Já se apagaram os olhares lânguidos 
Dispostos a furtar excitadas taquicardias

Aponta os olhos para o passado 
Projetando futuros no ontem 
E ri, pura e simplesmente ri 
Enquanto o dedo dispara 
O tiro de misericórdia.

(SANTOS, Evandro Ivam dos)

19 de novembro de 2012

Procura


Procura-se alguém 
Que não tenha idade nem cor 
Mas que fale de amor...

Procura-se alguém 
Não precisa saber onde ir 
Mas que seja alguém 
capaz de sorrir...

Procura-se alguém 
Não precisa dar 
O seu pão a quem não tem 
Mas que seja capaz de repartir...

Com minha procura descobri 
Que o mundo está vazio 
Vazio de amor 
Vazio de pessoas alegres 
Vazio de gente capaz de repartir...

Então me dei conta 
Da miséria em que vivemos 
Percebi que não vale a pena 
Somente crer que um dia isso vai mudar...

É preciso agir 
É preciso encontrar gente disposta 
A encontrar a saída deste mundo imundo 
Que o egoísmo criou.

(SILVA, Eva Maria Rosa da)

16 de novembro de 2012

Um amor de menina

Outro dia no orfanato 
Vi as crianças sentadas 
A uma mesa barata, 
Recitando um salmo.

Após a refeição matinal 
Elas foram para o quintal, 
Para brincarem com os bichos: 
Frangos, cachorros e suínos.

Crianças pequenas e pobres 
Sem pais, sem mães, sem avós; 
Apenas corações puros e nobres 
Naquele orfanato, todas sós.

E aquela garotinha na horta 
Tendo à mão um regador, 
Aguava as plantas e cantava, 
Então ela arrancou uma flor.

E veio correndo me abraçar 
E não quis mais me largar. 
Ela me deu a flor e disse: 
“Papá, não vá! Papá, não vá!”

(LIMA, Emanuel)

13 de novembro de 2012

Cuidado, menor


Se a rua é meu lar 
O ar meu melhor amigo 
Se meu abrigo é a calçada 
E a geada meu “frigidaire” 
Se a mulher a me dar carinho 
É um pedacinho de papelão 
Se até meu pão é o lixo 
E se bicho eu não sou 
Se estou drogado, imundo 
E meu mundo é diferente 
Se a gente me detesta 
E se a festa pra mim é a fome 
Se homem não posso ser 
Por não ter bens nem idade 
Se a sociedade é maldita 
E dita as regras do jogo 
Se é um fogo o protesto 
E detesto me queimar 
Se meu andar já é suspeito 
E meu jeito me denuncia 
Se a alegria que sinto é tristeza 
E certeza já não tenho 
Se venho implorar carinho 
E um pouquinho de amor 
Se a dor já me supera 
E a espera é a morte que vem 
Se mesmo ninguém quer me ouvir 
Então o jeito é sumir... 
Gente eu não sou gente?! 
Sou, mas de quem é a culpa? 
Então me ajude a viver 
Por favor não quero morrer 
Sou ainda muito jovem 
Sou um menor ABANDONADO.

(GALLON, Elôi)

10 de novembro de 2012

Penso em nós


Penso em nós como duas pessoas que se depararam perante
            um crepúsculo da natureza onde a paixão pairou no ar. 
Por instantes, diálogos inseguros; por outros, olhares
            cintilantes falavam por nós. 
Fomos descobrindo o amor mútuo que existia entre nós.
            O sol queimava nossa pele, a brisa passava por entre
            nossos cabelos, como querendo nos acariciar feito mãos
            do tempo. 
Teus toques suaves deixavam transparecer teus sorrisos
            escondidos. 
Tua voz melodiosa me encantava em cada palavra pronunciada. 
Permutávamos grandes e meigos carinhos. 
Eu, hoje, penso em nós como um todo, suprindo-se ambos
            os vazios que existiram. 
Ao transcorrer do tempo, recordaremos nas asas da saudade
            nossos momentos de grande felicidade. 
Penso em nós como duas pessoas que o tempo vinculou e
            que jamais irão se dispersar.

(DUTRA, Elisangela Scopel)

7 de novembro de 2012

Positivo


Um sonho a dois 
Enfim... positivo! 
O que acontecerá agora? 
Será perfeito? 
Não importa, deu positivo 
Já o vês crescendo 
Quebrando vidraças 
Não importa, deu positivo 
Médico, advogado 
Professor ou operário 
Não importa, deu positivo 
Se o destino te trair 
E no mundo se perder 
Mostrarás um sinal. Será positivo 
Ainda que esta missão 
Por razões mais fortes for interrompida 
Saberás suportar sorrindo 
Pela razão de ter dado positivo 
E diante destas alternativas 
O que importa é que ele virá 
Feio ou bonito 
Forte ou frágil 
Sementes de você 
Positivamente é seu filho.

(BUSIN, Edson)

4 de novembro de 2012

O banquete


Comida não falta. A decoração é incomparável. 
Os presentes caríssimos, conforme o uso.

Os garços treinados são perfeitos no métier: 
Com olho clínico, conhecem logo os clientes.

Servem os parentes, os amigos, os afilhados 
E também os que se encontram bem trajados.

A multidão aguarda, feliz, a sua vez. 
Seus olhos secam, depois de muito esperar. 
O estômago dói, sua boca há muito já secou.

Muitos começam a se acreditar intrusos; 
Alguns vão-se embora, indignados; 
Outros, em grupo, reivindicam.

Há os que têm vergonha de reclamar 
Em público – O que iriam pensar? -

A desnutrição faz confundir a mente, 
Chega a dar sono, embriaguez, estupidez...

Os garçons espertos percebendo 
Que a tristeza do ambiente vai comprometer 
O brilho desse banquete admirável 
Servem os salgadinhos chamados de “tapa-boca”.

Enquanto poucos se deliciam com a sobremesa 
A maioria espera, sem comida à mesa.

(CERCATO, Doroti da Silva)

1 de novembro de 2012

Poema do Não Ir

Sobre o poste de antiquário uma rota lanterna 
mal acesa ronda pálida o Tempo do Não Ir. 
A madrugada, outonando a noite vai parindo a aurora, 
andarilha viciada que retorna à mesma hora 
e inicia à mesma hora o rito de partir.

                         Há rastros retardados pela rua quase deserta 
                         Talvez de um último ébrio que assim, retardatário 
                         tateou na escuridão a direção incerta.

Boceja a orvalhada silhueta da cidade 
Um bocejo que pincela com palhetas de lilases 
a rotina da aurora, que de velha e recém-nata
                                            nasce e vive, morre e nasce
                                            e conserva a mesma idade.

A angústia que se instala no Tempo do Não Ir 
introniza perplexa um medo ignorante 
da terra que encobre a matéria emudecida. 
Os noturnais acordes das sentinelas rãs 
coaxam em surdina ladainhas pagãs 
num rito semelhante aos demais ritos da vida.

Na bailarina lágrima do Tempo do Não Ir 
a sapatilha d'alma vai escorrendo surda 
a face perturbada de uma sentida espera.

29 de outubro de 2012

S.O.S. criança


Enquanto os grandes 
Falam da paz 
Com a mesma força 
Que falam da guerra 
Eu fico olhando 
Meus brinquedos enferrujados 
Andando de bicicleta 
Para todos os lados 
Machucando meus joelhos 
E o tempo passa... passa... 
As matas vão desaparecendo 
Os peixes morrendo nos rios 
Os animais morrendo contaminados 
Nas ruas muitas crianças 
Morrem de fome 
No céu eu enxergo poucas estrelas... 
Será que estes homens irão 
Deixar alguma coisa para nós?...

(TAVARES, Denison Linus da Motta)

26 de outubro de 2012

Abismo


Grinaldas de estrelas buscaram-me 
Para em outras esferas a paz consentir 
Recordei imagens da minha infância 
Tempos remotos em que aprendi existir.

Envolvido na densa poeira do tempo 
Descobri os secretos caminhos do porvir 
Toquei da missão o turbante das trevas 
E do fundo do abismo me fiz emergir.

Num lampadário reuni minhas forças 
No peito a cachoeira da fé surgir 
Luminosa a aurora cantou seu poder 
Abriu-se o rosto no infinito a sorrir.

Vergônteas de sonho e abismo gigantes 
Da tenebrosa morte as garras sentir 
Imantado o grandioso lume da vida 
Outra esfera de paz e música a ouvir.

Além dos limites soterrantes do mundo 
O maestro da vida vem dirigir 
Tocando no abismo a alada música 
Fervendo a essência que vem fluir.

(TERRA, Cláudio Sérgio)

23 de outubro de 2012

Maldito...


No meu ventre te alastras, 
do meu corpo desfrutas, 
palpitas sedento, 
desculpas injúrias, 
quando do meu seio bebes, 
gulosa crianças mal parida, 
é de sangue e ódio, 
o corpo que se esfrega ao meu, 
como besta rasga sem piedade 
as carnes que dilaceram, 
o grito dolorido que brota, 
a pele molhada e mal ardida, 
bicho insano, de fúria, 
de gula, de gana, 
sorves do meu colo, 
depois dá-me as sobras, 
e que delas me contente, 
pois o carma de seduzi-lo, 
leva-me a loucura estranha, 
tê-lo como amante, 
fazer de ti bicho...

(MARCON, Beatrís D'Andrea)

20 de outubro de 2012

Coração em fogo


Noite fechada, hostil... lá fora, um vento frio 
Parecia chorar numa expressão de morte 
Como se fosse um ser preso de triste sorte, 
Sem lar, sem pouso certo, a vagar, erradio... 

Bateram... -Entre, eu disse, e um vulto esguio, 
De um branco de marfim e doloroso porte, 
Entrou. Nessa mulher via-se o traço forte 
De uma renúncia!... E me quedei, sombrio,

A fitá-la; e senti, através do seu rosto, 
A pureza da lama, as chagas de um desgosto... 
Aqueceu-se à lareira, em silêncio, a meu rogo,

E as brancas, frias mãos, as aqueci nas minhas... 
Veio o dia e partiu!... - Sol, calor, andorinhas... 
E eu, frias tinhas as mãos e o Coração em Fogo...

(PERTILE, Anita Zanettini)

17 de outubro de 2012

Ecos


Ouço gritos longínquos e temo 
Temo que possam existir em mim 
O medo desaponta 
Lembra-nos a fragilidade interna 
Esteriliza a alma 
Sublime condensação 
São ecos da solidão

O tempo não limita a saudade 
A serenidade se faz loucura 
A loucura vaga em distantes lembranças 
O duelo exige perseverança, ponderação 
Os sensatos preferem a morte... interação

Neste silêncio extenso 
O vazio das palavras 
Nas frases exorcizadas 
A meia verdade dissimulada

Desfalece no olhar casto 
A última gota de saudade 
Existe o silêncio 
As imagens descontínuas 
O despertar dos questionamentos 
Lamentos

Encontrei olhos que tinham o poder da comunicação 
Hoje são ecos... 
ECOS DE SOLIDÃO.

(CARBONERA, Ana Luiza)

14 de outubro de 2012

Perdoei

Perdoe por eu pregar a paz e a justiça. 
Perdoe por eu não compreender o porquê de sua incompreensão para consigo. 
Perdoe por eu ajudar aos meus amigos sem fazer diferença de raça, cor ou situação social. 
Perdoe por eu amar e ser amada pelos que me cercam. 
Perdoe, porque gosto da natureza e de tudo faço para preservá-la pouco importando-me com os prós ou contras. 
Perdoe por eu querer modificar o mundo com conselhos e palavras amigas. 
Eu te perdoo por eu ser eu e não ser você.

(MOLARDI, Andreia)
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A partir deste texto, irei publicar mais textos furtados do livro 3ª Antologia Caxiense de Poetas – 1º Concurso Caxiense de Poesias
Este livro contém textos que foram publicados para as comemorações dos 100 anos da cidade de Caxias do Sul – 1890-1990. 
As publicações destes textos terão o marcador "3ª ACP".

11 de outubro de 2012

Sem título 5


Não te irritas, por mais que te fizerem. 
Estuda, a frio, o coração alheio.. 
Farás assim, do mal que eles te querem, 
teu mais amável e sutil recreio...

(QUINTANA, Mario)

8 de outubro de 2012

Sem título 4


Pode-se dispersar sementes, se não existir amor, nada brotará. 
Sou apenas uma pessoa que rabisca sentimentos no papel. 
Traduzindo sonhos e esperanças, escrevendo teu nome no meio da folha. 
Idealizando teu ser, mas amando tua presença.

(DUTRA, Elisangela Scopel)

5 de outubro de 2012

Falas furtadas de "Hamlet", de William Shakespeare

A infâmia sempre reaparece ao olhar humano, 
Mesmo que a afoguem no fundo do oceano.

(Fala de Hamlet no fim da Cena II do Ato I)



(...) Pois a natureza não nos faz crescer 
Laurence Olivier interpretando Hamlet
em famosa adaptação da peça
para o cinema, em 1948
Apenas em forças e tamanho, 
À medida que este templo se amplia, 
Se amplia dentro dele o espaço reservado 
Pra alma e pra inteligência. (...)

(Fala de Laertes à Ofélia na Cena III do Ato I)



(...) E coloca tua afeição 
Fora do alcance e do perigo do desejo. 
A donzela mais casta não é bastante casta 
Se desnuda sua beleza à luz da lua. 
A mais pura virtude não escapa ao cerco da calúnia. 
A praga ataca os brotos da primavera 
Antes mesmo que os botões floresçam; 
E na manhã orvalhada da existência 
Os contágios fatais são mais constantes. 
Tem cuidado, então; o medo é a melhor defesa. 
Uma jovem se seduz com sua própria beleza.

(Fala de Laertes à Ofélia na Cena III do Ato I)



(...) Ele, repudiado - vou encurtar a história - 
Caiu em melancolia, depois em inapetência; 
Logo na insônia; daí em fraqueza; afinal, em delírio. 
E, por esse plano inclinado, na loucura em que se agita agora; 
E que todos deploramos.

(Polônio sobre Hamlet na Cena II do Ato II)



Ser ou não ser - eis a questão. 
Será mais nobre sofrer na alma 
Pedradas e flechadas do destino fero 
Ou pegar em armas contra o mar de angústias - 
E, combatendo-o, dar-lhe fim? (...)

(Fala de Hamlet na Cena I do Ato III)



O poder da beleza transforma a honestidade em meretriz mais depressa do que a força da honestidade faz a beleza se assemelhar a ela. Antigamente isso era um paradoxo, mas no tempo atual se faz verdade. (...)

(Fala de Hamlet à Ofélia na Cena I do Ato III)



Já o sol trinta voltas perfeitas tinha dado 
Sobre o verde da terra e o mar salgado 
Trinta dúzias de luas usando luz alheia 
Tinham doze vezes trinta sido lua cheia 
Desde que o amor uniu você e eu 
Pelos laços sagrados do Himeneu.

(Fala de um ator interpretando um Rei na Cena II do Ato III)

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"Hamlet" é uma tragédia de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601.
A peça, situada na Dinamarca, reconta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai Hamlet, o rei, executando seu tio Cláudio, que o envenenou e em seguida tomou o trono casando-se com a mãe de Hamlet.
Fonte: Wikipédia

2 de outubro de 2012

Canção dos umpa-lumpas para Miguel Tevel


Esse é Miguel Tevel.

Era e não era, que história maluca,
Será uma aventura ou uma arapuca?
Dos cinco do início da história
Só um vai obter a vitória.
Três já tomaram chá de sumiço.
Falta só um pra acabar o serviço.
Pois tem um sujeito que é um grande palhaço
E sempre se acha o bom do pedaço.
O tonto se chama Miguel Tevel,
Tem rima no nome e é um grande pastel.
Não lê, mal conversa, não pinta, não borda,
Não brinca de pique e nem pula corda.
O tonto só tem uma grande paixão,
Só pensa e só fala em televisão.
Deixa a TV o dia todo ligada
Esse é o Miguel após ser transmitido pela TV.
E nem vê o que presta, só vê patacoada.
Papo com ele não dá pra levar,
Por falta de assunto já vou terminar.
O cara é um chato, não tem outro jeito,
Vai ter que ir pro ar, e eu acho bem-feito.

(DAHL, Roald. 1964; traduzido por Dulce H. Vainer; ilustrações de Cláudia Scatamacchia)

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Essa canção foi cantada pelos umpa-lumpas logo após Miguel Tevel correr em direção à câmera que faz com que qualquer coisa seja transmitida pela televisão, na Sala de Chocolate-Televisão. Ele se transmite pela TV e fica bem pequenininho. Essa história é do livro A Fantástica Fábrica de Chocolate.

29 de setembro de 2012

Canção dos umpa-lumpas para Veroca Sal


Essa é a Veroca Sal.

Sal demais em qualquer comida
Deixa a gente com a garganta ardida.
Veroca Sal não é sal, é criança,
Mas deixou entre nós ardida lembrança.
Mimada, estragada, entojada, briguenta,
Tem tudo o que quer e não se contenta.
Escreveu não leu ela chama o pai,
Só abre a boca e pede o que sai:
Brinquedos, doces, qualquer bugiganga.
Se é tempo de uva ela pede manga,
Se em casa tem doce ela pede salgado,
Se tem rapadura ela pede melado.
Se está na Itália quer ir pra Argentina,
Se está na praia quer ir pra piscina.
Exige e quer tudo o que sonha
Essa é a Veroca sendo atacada pelos esquilos.
E o pai obedece que nem um pamonha.
A mãe, outra tonta, está sempre aflita,
Naquela família só a filha é que apita.
Mas na fábrica quem manda é Seu Wonka
E a Veroca acabou levando uma bronca:
Você pensa que aqui está na sua casa?
Que pode pedir galinha sem asa
E querer transferir o Amazonas pro Nilo?
Pois só faltava querer um esquilo!
Pra uma menina com tanto capricho
O melhor lugar é no meio do lixo.
Mas não se preocupe, vai ter companhia,
Vai ter papel velho e caixa vazia,
Lasanha estragada ainda com molho,
Feijão azedo com resto de repolho,
Espinha de peixe, osso de galinha,
Casca de banana e lata sem sardinha.
Pra quem só conhece riqueza e luxo
Vai ser difícil aguentar o repuxo.
Mas pra Veroca é esse o remédio
Pra não acabar morrendo de tédio.
Pois essa mania de pedir só besteira
Bem lá no fundo é uma grande canseira.

(DAHL, Roald. 1964; traduzido por Dulce H. Vainer; ilustrações de Cláudia Scatamacchia)

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Essa canção foi cantada pelos umpa-lumpas logo após Veroca Sal invadir a Sala das Nozes, na Fábrica do Sr. Willy Wonca, e tentar pegar um esquilo; no mesmo instante todos os esquilos a atacam e a jogam no lixo. Essa história é do livro A Fantástica Fábrica de Chocolate.

26 de setembro de 2012

Canção dos umpa-lumpas para Violeta Chataclete

Essa é a Violeta Chataclete.
Criança que não tira chiclete da boca
Fica com cara de cabeça oca,
Essa é a Violeta como amora.
É pior ainda que criança remelenta,
Mais irritante, feia e nojenta.
A propósito disso me vem à memória
Esta trágica, horrível e triste história:
Era uma vez a doce Teresa
Que apesar de dona de rara beleza,
Mulher de respeito e fina senhora
Comprava chiclete a toda hora.
Mascava chiclete o dia inteiro,
Na cozinha, no quarto, no banheiro,
Na rua, no trabalho, dentro da igreja,
E até no barzinho tomando cerveja.
O chiclete da moça virou piada,
As pessoas comentavam e davam risada.
Um belo dia acabou a comédia
E o que era engraçado virou tragédia.
O hábito da moça virou mania;
Ela quis parar e não conseguia.
No meio da noite se o chiclete acabava,
Teresa ia mascando tudo o que achava:
Bala, macarrão, queijo, berinjela,
Se acabava a comida mascava a panela.
Mastigava almofada, toalha, tapete,
Pasta de dente, escova e sabonete,
Bolsa, sacola e sola de sapato,
Ia pro jardim e comia até mato.
Sua boca mascava que nem maquininha
Teresa acabou perdendo o que tinha.
O queixo cresceu, a boca inchou,
Foi indo, foi indo, Teresa pirou.
Nem pra dormir ela tinha sossego
É claro que acabou perdendo o emprego.
Por isso essa tal Violeta Chataclete
Que já é meio chata e metida a vedete
Precisa com urgência de uma lição
Porque daqui a pouco não tem salvação.
Uma coisa é saber que a menina Violeta
Sempre vai ser um pouco zureta.
Mas ninguém lhe deseja a imensa tristeza
De acabar maluca como a Teresa.

(DAHL, Roald. 1964; traduzido por Dulce H. Vainer; ilustrações de Cláudia Scatamacchia)

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Essa canção foi cantada pelos umpa-lumpas logo após que Violeta Chataclete masca um chiclete que estava em processo de testes e, portanto, ocorreu um problema: ela virou uma amora! Essa história é do livro A Fantástica Fábrica de Chocolate.

23 de setembro de 2012

Canção dos umpa-lumpas para Augusto Glupe

Este é o Augusto Glupe.
Augusto-gusto! Augusto-gusto!
É olhar pra ele e morrer de susto!
Pão, requeijão, bala, macarrão,
Só pensa em comer o gordo bobão.
Não dá sossego, tudo ele quer,
Por todo canto ele mete a colher.
Não sabe cantar, não sabe sorrir,
Sua vida é só mastigar e engolir.
Menino mais chato, pessoa xinfrim!
O que fazer em casos assim?
A gente podia estalar o dedo
E fazer Augusto virar brinquedo!
Bola de gude, pião, peteca,
Jogo de damas, balão, boneca.
Mas desse menino tão mal humorado
Só ia sair brinquedo quebrado.
E se o Augusto, minha gente,
Virasse um tubo de pasta de dente?



Este é o Augusto no rio de chocolate.
Mas pasta de dente tem gosto de menta,
E o gosto do Augusto ninguém agüenta!
Mudar de verdade esse paspalho
Vai dar mesmo muito trabalho
Pra adoçar esse humor tacanho
A primeira coisa vai ser um banho
Mas não pensem vocês que vai ser de chuveiro
O Augusto vai entrar de corpo inteiro
Num rio de calda de chocolate.
Depois então é bate-que-bate,
Põe creme, enrola e põe cobertura
Que tem de secar até ficar dura.
Esta receita é pra fazer bombom fino,
Mas não sei se dá certo bombom de menino.
É um bom tratamento, sem crueldade,
Ninguém está a fim de fazer maldade.
O Augusto é fogo, haja paciência!
Mas não é caso pra agir com violência.
Então não se assustem, não tenham medo.
Só queremos um Augusto menos azedo.

(DAHL, Roald. 1964; traduzido por Dulce H. Vainer; ilustrações de Cláudia Scatamacchia)

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Essa canção foi cantada pelos umpa-lumpas logo após que Augusto Glupe cai no rio de chocolate, fica preso no cano de sucção e é levado para a Sala de Calda de Chocolate na Fábrica do Sr. Willy Wonka no livro A Fantástica Fábrica de Chocolate.

20 de setembro de 2012

O sarcófago de Tutancâmon

Certa vez, Renata conheceu uma menina que era muito curiosa, seu nome era Najla. Ela foi morar ao lado de sua casa, sendo assim, os pais de Renata foram recebê-la.
Num certo dia, Renata chamou Najla para brincar, ela lhe contou que em sua casa descobriu um lugar no porão, mas não teve coragem para entrar e que mesmo assim estava morrendo de curiosidade. Ouvindo tudo isso, Renata teve a ideia de irem juntas para lá, meio com dúvida porque nunca tinha ouvido falar naquele lugar estranho no porão da casa de Najla.
E lá foram as duas. Quando estavam chegando lá, Renata lembrou que o antigo dono, o senhor Nadhiel, era fascinado pelo Egito, mas nunca tivera visto nada dentro da casa sobre tal assunto. Nesse momento, Najla avisou Renata que tinham chegado. Esta tomou um susto, pois na parede do porão estava pintado com muita nitidez Osíris, o deus da morte, além de vários sinais que pareciam hieróglifos, mas que elas não entendiam. Assim, se entreolhando, Najla perguntou para Renata se ela teria um livro sobre o assunto. Como a responta foi afirmativa, as duas correram para a casa de Renata para procurar o livro. No dia seguinte, elas estariam na tal sala secreta.
Finalmente, o dia tão esperado chegou: o dia de entrar na sala. As duas se encontraram na rua e correram para o porão. Abrindo o livro, Renata lia com cuidado cada palavra, cujo significado correspondente era como se fosse um quebra-cabeça. Ao terminarem, desvendaram o mistério: “Se quiserem entrar nesta câmara, aperte o abrir, em seguida o confiar, então ela se abrirá”.
E foi exatamente o que elas fizeram: apertaram o abrir e o confiar. De repente, algo se abriu e avistaram uma câmara. Renata quase caiu dura no chão, pois lá estava a lendária tumba de Tutancâmon, toda coberta de ouro e pedras preciosas. Além disso, a sala estava cheia de hieróglifos.
Najla, olhando tudo aquilo, logo foi abrindo a tumba e... surpresa!, lá estava mumificado o senhor Nadhiel. Nesse momento, Renata disse que não foi à toa que tudo estava lá sem ninguém ter roubado e ainda acrescentou que achava que nem mesmo a mulher dele sabia daquilo. Najla, em seguida, pegou o celular e ligou para a polícia e para o museu relatando sobre toda a descoberta.
Assim, no outro dia, Najla e Renata foram chamadas à delegacia e, em seguida, recompensadas pelo museu pela bela descoberta de todos os mistérios. Também foram informadas que o sarcófago de Tutancâmon fora enviado para Paris, na França, e que todos estavam agradecidos.

(OLIVEIRA, Kassy Mary Kakuhama; 11 anos)

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Esse é o último texto furtado do livro Noite e Dia Prosa e Poesia. Espero que tenham gostado de todo esse tempo de textos de escritores desconhecidos do público.
Veja todas as publicações selecionadas deste livro neste link.
 

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